04/06/2014

A explosão em Três Corações

Após um bom tempo de sumiço, cá estou para arquivar mais uma das inacreditáveis e REAIS histórias de minha avó. Estávamos agora mesmo relembrando algumas das grandes tragédias mundiais, como uma bela família normal e feliz. Guardadas as proporções, minha avó lembrou-se de um relato que eu ainda não havia exposto. RELATO, e não "causo", pois este ela presenciou, e se lembra com detalhes.
É louvável a memória dessa grande mulher, mas neste caso, pudera! Algo assim não sai da memória facilmente.

Aconteceu por volta de 1944. Minha avó tinha por volta de seus seis anos de idade e ainda morava em Três Corações, interior de Minas Gerais. Era domingo (sim, esse detalhe é certo, pois os domingos eram passadas na casa da avó mineira de minha avó - Etelvina). Estava ela então, no breve início de sua vida, visitando sua avó em um domingo qualquer. Seus pais estavam em sua casa, a poucas ruas dali.

Os trens da cidade, na época comandados pela Rede Mineira Viação, não funcionavam naquele momento; estavam todos os vagões imóveis, próximos à estação. Era a hora do café da tarde quando ouviu-se uma explosão enorme. O barulho ensurdecedor veio acompanhando de estrondos de janelas quebrando, móveis caindo e objetos sendo atirados. Minha avó se lembra que a faca que segurava no momento, foi parar do outro lado da cozinha. Em seguida, iniciou-se um festival de gritos desesperados. As pessoas foram às ruas, gritando, rezando, chorando e correndo, em questão de segundos. Além do tumulto na tal cidade pequena, outro dado que marcou a memória de minha avó foi a cor do céu. Em minutos o céu se avermelhou, num "vermelho cor de sangue", como ela mesma descreve. A empregada da casa da avó de minha avó, dona Nair, pegou as crianças e correu junto com o restante da população para o morro mais alto da cidade. A cena de terror de um mutirão de pessoas debandando, em massa, para as colinas, deve ter sido cinematograficamente marcante, a ponto de não conseguirmos descrever. Pois bem, criem as imagens em suas cabeças.

Numa casa próxima estava Zina, mãe de Myrian (minha avó), que carregava em seu ventre o pequeno Marcos. Zina e seu marido Luiz estavam saindo da casa com destino à casa dos pais de Luiz. Minha avó lembra-se perfeitamente desse trajeto "lar-casa dos avós". No caminho ficava o grupo escolar que minha avó frequentava em Três Corações. Zina foi atirada na calçada do grupo escolar, com a forte pressão que acompanhava aqueles estrondos. Suspeita-se que essa pode ter sido uma das causas dos problemas que levaram seu filho, Marcos, a falecer, ainda bebê.

O medo dos barulhos ensurdecedores e do céu vermelho era ainda maior pois não sabiam identificar as causas. Aos poucos os barulhos foram parando e o céu clareando. As pessoas foram arriscando-se a descer do morro e a voltarem para suas casas.

Após um certo tempo tudo foi se esclarecendo. Perdoem-me as explicações técnicas pois estas foram fornecidas por uma criança de seis anos e o prazo de validade de tais informações já está mais do que distante. O que sabe-se é que o trem mais próximo à estação estava parado e transportava material inflamável, que chamaram na época de Nitroglicerina. Ou era algo próximo. O fato é que a tal substância foi o suficiente para explodir um vagão e causar um estrago imenso em diversas construções próximas. Logo em seguida o segundo vagão foi atingido, explodindo mais uma parte dos patrimônios de Três Corações. As explosões e as construções atingidas que causaram tamanho barulho. Consequentemente os próximos vagões, em efeito dominó, seriam o suficiente para destruir a cidade inteira, "conforme comentaram na época".

Houve um herói nessa história toda. Um soldado da escola de sargentos da cidade conseguiu mover os trilhos (ou algo assim - não exijam tanto da memória de uma criança!) e tirou os próximos vagões da rota, amenizando o problema.

Entendo que seja incomum uma história com tantos detalhes impertinentes e pouca explicação técnica, mas acredito que assim funcione uma mente movida apenas a saudades. Fica o apelo ao exímio historiador que acredite ser capaz de descobrir detalhes de uma história que mal data tem.

26/05/2012

O Conto do Vigário

A história a seguir chega a ser tão previsível que é possível imaginar que isso jamais aconteceria, tamanha besteira. Para quem não sabe, nos "trejeitos linguísticos" de nossas vovós (como gosto de chamar), "cair no conto do Vigário" é ser enganado. Tal gíria idosa surgiu por conta do truque que especialistas em trambiques usavam, dizendo-se vigários (padres) para terem maior credibilidade com o enganado.

Pois bem, tal história ocorreu com o italianíssimo "falastrão" tio César, e chega a ser mais engraçada ainda se considerarmos que tal figura tinha fama de ser "o espertalhão da família". O causo chegou a sair até mesmo num jornal local da época, em uma coluna denominada "contos do vigário". Minha avó Myrian, fonte de tal relato, lembra-se do causo com detalhes apesar de seus insignificantes 6 anos de idade.

Tio César havia acabado de vender seu carro para um vigário de sua cidade, mas o tal padre afirmava que teriam que buscar o dinheiro do pagamento numa cidade vizinha. No dia combinado, tio César levantou cedo, e animado foi buscar o padre. Foram no caminho conversando sobre o "bom negócio" que tinham feito.

Não se sabe ao certo como foi, tampouco importa, o fato é que o esperto tio César chegou em casa horas depois, exausto e a pé; sendo recebido debaixo de risos dos familiares por ter sido enganado pelo falso-vigário.
Consta no jornal da época a seguinte nota: "levou o conto do vigário do próprio vigário".

24/05/2012

Fausto Pereira Garcez


(Clique nas fotos para ampliá-las!) Antes de meu avô-pai, que me criou e a quem tenho profunda admiração, fora também personagem importante na história esportiva de Taubaté. Contarei um pouco sobre o início de tudo, quando eu ainda nem pensava em existir. Pois bem, Fausto Pereira Garcez nasceu em 09 de maio de 1932, em Queluz, uma cidade localizada aos pés da Serra da Mantiqueira, no caminho de São Paulo - Rio de Janeiro.

Teve uma infância humilde ao lado de seus pais, o carteiro Cyro Carlos de Oliveira Garcez e sua mãe Adelaide, mais conhecida como "Dona (ou vovó - pelos netos) Filhinha"; e ao lado de seus sete irmãos Luiz, Silvio, Lúcio, Noel (Neco), Tereza (Nhe), Wanda e Sônia.

Em julho de 1932, ao estourar a Revolução Constitucionalista, meus bisavós, temendo um possível bombardeio, decidiram fugir da cidade a pé. Foi durante uma das noites que caminhavam que meu avô, ainda bebê, caiu no Rio Paraíba do Sul. Após o resgate conturbado seguiram viagem.

No começo de sua juventude, a família Garcez mudou-se para Taubaté, um pequeno município do Vale do Paraíba, interior de São paulo. Continuaram vivendo de forma humilde.
No documento abaixo Fausto Garcez, aos dezesseis anos, começa a engrenar na carreira esportiva.


Meu avô Fausto conheceu minha avó, Myrian, no auge de seus 21 anos, quando Myrian ainda tinha apenas 14 e frequentava o colégio de freiras Bom Conselho. Conheceram-se no "Taubaté Country Club" e namoraram por sete anos e meio.

Carreira de bancário:
Fausto iniciou sua carreira de bancário no Banco do Vale do Paraíba, em 1951.
Em 1955 Fausto passou no concurso da Caixa e foi trabalhar como escriturário no prédio da CBI, localizado na cidade de São Paulo (vale do Anhangabaú). Morou em uma pensão na Praça da República, onde dividia o quarto com dois completos desconhecidos. Chegava a dormir com o dinheiro no bolso para não ser roubado.
Posteriormente conseguiu a transferência para a Delegacia Regional da Caixa Econômica de Taubaté, na sessão de contabilidade.

Carreira de esportista:
Inicialmente Fausto tornou-se zagueiro de futebol de salão, participando de torneios e campeonatos quando ainda muito jovem. Em pouco tempo ficou conhecido como Fausto "boas maneiras" por sempre pedir desculpas ao esbarrar nos atacantes; o apelido foi encurtado para "Boas" logo depois.
Concomitantemente Fausto mantinha a carreira de jornalista esportivo do jornal "A Tribuna", de Taubaté; e cronista esportivo da Rádio Difusora de Taubaté. Nesse período foi eleito presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Taubaté. Há registros de um torneio de futebol amador, organizado pela Liga Municipal, que foi denominado "Torneio Fausto Pereira Garcez". Como jogador, chegou a atuar em campeonatos juvenis e amadores da cidade.



Jornal "A Tribuna" - Taubaté, sexta-feira, 10 de fevereiro de 1961





Em 1961, minha avó tinha 22 anos e meu avô 29, quando casaram-se na Catedral de Taubaté, conforme detalha a matéria publicada no principal jornal da cidade na época "A Tribuna", do qual meu avô era funcionário. O casamento também foi narrado na Rádio Difusora de Taubaté, por um colega de Fausto.


Matéria publicada no jornal "A Tribuna". Taubaté, domingo, 21 de maio de 1961. Detalha o casamento inteiro de meus avós, do tecido do vestido da noiva ao traje do noivo. Destaque para: "a encantadora Myrian" e "O noivo Fausto Pereira Garcez que é um gentleman, rapaz de fino trato..."


Esse segundo registro da matéria eterniza até mesmo a presença da vizinha-de-juventude de Myrian, a Rainha do Rock e irmã do produtor e cantor Tony Campello, Celly Campello. Destaque para as citações dos discursos de "o poeta Luiz Guerra Paixão" e  do cronista "Vavá".

Fausto e Myrian tiveram quatro filhos. Marcelo, nascido em 5 de novembro de 1961; Marcos, nascido em 31 de outubro de 1964; Marianne, nascida em 20 de maio de 1971; e minha mãe, Milene, nascida em 13 de março de 1973.


Fausto com a esposa Myrian e os quatro filhos.

Final de sua vida profissional:
No começo de 1964, com os dois filhos-homens ainda pequenos, foi convocado para prestar serviços em na cidade de São Paulo novamente, onde permaneceu na rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Dormia em um alojamento dentro de uma oficina mecânica, chamado "Sono curto". Haviam homens de todo o estado dividindo o mesmo alojamento. Fausto voltava nos finais de semana para Taubaté para ver a família.
Foi então nomeado "inspetor de agência" na Regional de Santos (sede da região). Passou a fazer inspeções do Vale da Ribeira até a Divisa do Paraná. Nesse período hospedava-se num hotel em frente à praia Zé Menino, no Canal 2. Sua rotina era sair de Taubaté todas as segundas-feiras às 6h da manhã e voltar `s sextas às 23h.
Foi então convocado a ser coordenador de inspeção na cidade de São Paulo. Nesse período viajava diariamente para São Paulo, "não tendo posado nem uma só noite em Sp.", como ele mesmo sempre ressalta.
Após toda essa batalha na carreira profissional, foi convidado ao cargo de Diretor de Orçamento da Caixa, mas optou pelo retorno a Taubaté, onde viveu sua última fase profissional ao lado da família, como chefe de contabilidade e gerente regional substituto.


"Corinthiano roxo", Fausto levou seus filhos ao jogo de 1977 na capital paulista, "quando Corinthians derrotou a equipe da Ponte Preta de Campinas, por 1x0, gol de Basílio, quebrando um jejum de 23 anos", segundo ele. Sempre de bom-humor, Fausto tornou-se um dos mais conhecidos fanáticos-brincalhões da cidade, e influenciou seus filhos e suas duas netas (eu e minha prima Maitê) em relação ao amor que sentem pelo time, que passa de geração em geração.

Após a aposentadoria passou a dedicar-se mais às tarefas diárias e aos filhos. Assim que nasci sua vida tomou outro ritmo, uma vez que eu (ainda bebê) e minha mãe, fomos morar em sua casa. Foi então pai uma quinta vez.


Eu ao sair da maternidade no colo de meu avô, com a roupinha do Corinthians.

Atualmente se dedica às netas e a todos que o cercam. Jamais houve ou haverá homem mais honesto e generoso. Seu caráter acabou ficando conhecido na cidade, e isso é a prova de que não estou dizendo somente porque ele é meu avô. Sempre procurando o bem-estar daqueles que estavam à sua volta, meu avô Fausto arranjou emprego para muitos e iniciou no mercado de trabalho diversas pessoas, que até hoje são gratas a ele.
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Abaixo, algumas matérias e fotos que hoje se tornaram documentos históricos e são a maior ligação que temos com o passado desse grande homem que é o meu avô. (clique nas fotos para ampliá-las.)


Fausto entrevistando o prefeito de Taubaté (setas). Ao seu lado direito, de terno e gravata, o primeiro técnico brasileiro a conquistar uma Copa do Mundo, Vicente Feola.





Fausto Garcez entrevistando o Pelé (Conterrâneo de minha avó Myrian), considerado por muitos o maior jogador da história do futebol, logo após a Copa do Mundo de 58. Jogo "Santos x Taubaté", 1958, Campo da Eletro - Taubaté/SP. 


Fausto entrevistando em campo o zagueiro do São Paulo/ Santos bicampeão mundial pela seleção brasileira em 58 e 62, Mauro Ramos.


1953. Seleção estudantil de Taubaté que venceu a seleção de Rio Claro por 8x1. Abaixo, o primeiro da esquerda para a direita, Fausto. Acima, o terceiro da esquerda para a direita, José Eli de Miranda, Zito, campeão mundial pelo Brasil em 1958; na época, estudante do Colégio Monteiro Lobato.



Fausto na Rádio Difusora de Taubaté. 



Fausto e a namorada Myrian Sisti.

23/05/2012

Sobre a morte de Esther Cavallari

Já havia constatado que Esther Cavallari faleceu em 26 de maio de 1961, por derrame cerebral após ter vivido dois anos em uma cadeira de rodas. E que por pouco, minha avó Myrian não conseguiu se despedir da admirada avó italiana.
Myrian havia acabado de se casar com Fausto Garcez e voltando da lua de mel passaria na casa da avó, que não pôde comparecer ao casamento pois já estava muito debilitada.
Como estava muito cansada da viagem, ela e meu avô voltaram direto para Taubaté e combinaram de fazer a visita tão esperada na semana seguinte. Sua avó Esther estava esperando a recém-casada ansiosamente e mostrou-se muito chateada por a neta não ter ido dar o abraço naquela semana, mas conformou-se pois a veria alguns dias depois.
Na manhã do dia 26, Esther acordou e foi à capela de Nossa Senhora. No período da tarde estavam 8 de seus filhos reunidos, menos César, o filho que, segundo relatos, era com o qual ela mais se preocupava e queria ajudar.
Minha bisavó Zina (também filha de Esther) contou que durante toda a tarde ela não tirou os olhos da porta a espera de seu filho César.
Esther faleceu de um derrame, ou trombose (não se sabe ao certo), logo após a chegada de seu filho César, mas ainda sem ver a neta querida Myrian Paixão Garcez.


Esther com filhas e netas. (Myrian é a criança do meio)



20/05/2012

Cora Emília

Não sei se a história de hoje é um fato ou se pode ser classificada como uma simples "lembrança". Eu diria que é muito mais, é uma prova de que, quando o sentimento é verdadeiro, ele perdura anos a fio. Mesmo que algo seja concretizado durante nossa fase mais efêmera e leviano, se esse "algo" vem do coração, pode mesmo durar para sempre.

Minha avó Myrian tinha uma amiguinha em sua terra natal, a cidade de Três Corações, no interior de Minas Gerais. A menininha se chamava Cora Emília e ambas tinham por volta de seus 7 ou 8 anos de idade quando minha avó foi embora de Minas. Não se sabe ao certo o sobrenome de Cora, levianamente, minha avó supõe que seja "Almeida" ou "de Almeida". É perfeitamente aceitável que não se lembre, qualquer um de nós se esqueceria até do fato, talvez. Por isso será impossível localizá-la ou qualquer membro de sua família para contar essa história bonitinha. Minha avó afirma até que existe uma foto das duas pequeninas gargalhando no canteiro da casa de uma delas. Mas revirei as latas de fotos antigas que temos e não achei nada...

Era a última noite de minha avó em Três Corações e, como de praxe, as duas brincaram na rua a tarde inteira. À noite, estavam na praça central da cidade perto de suas respectivas casas quando o pai de minha avó chamou-a para entrar. Era tarde e viajariam logo cedo na manhã seguinte. As duas crianças, conscientes de que nunca mais se veriam, fizeram um trato. Naquele momento tocava nos alto-falantes da praça a música "Frenesi" (Linda Ronstadt); e as duas combinaram de que, daquele momento até o fim de suas vidas, quando ouvissem a tal canção, se lembrariam uma da outra.

Independentemente da letra ou da amizade que acabou ali e talvez Cora nem guarde em suas melhores lembranças, minha avó até hoje, com 73 anos de vida, cada vez que escuta a canção ainda se lembra da amiguinha que deixou em Três Corações.

A canção relacionada à tal fato pode ser ouvida na lista de músicas do blog, lá embaixo, no final da página. "Frenesi" é a canção 14.

13/05/2012

A arte de fazer inimigos

Havia um homem que vendia livros bem na porta da faculdade que minha avó lecionava. Certa vez, minha avó passando por ali, parou e começou a analisá-los. Ao se deparar com um livro de título “A arte de fazer inimigos” comentou algo como “- Poxa, que interessante esse título”... O homem, puxando assunto, contou que já havia folheado, e uma das táticas era confundir o nome da pessoa. “É mesmo seu Renato?”, perguntou minha avó. “É, mas meu nome é Roberto.”, foi a resposta à pergunta infeliz.

28/04/2012

Correntes de Grão Mogol

Eis agora os famosos "causos de quentá fogo", como diziam os parentes mineiros de minha avó. Chamados assim por causa das comuns reuniões de família e vizinhos durante as noites em volta do fogão à lenha, principalmente nas noites mais frias. Encontramos aqui o que muitos chamam também de "lendas urbanas", "cultura popular" ou qualquer outro termo que se encaixe na antiga história de "quem conta um conto aumenta um ponto" e que eu, particularmente, adoro!

Correntes de Grão Mogol
O primeiro relato (prefiro chamar assim para dar um tom mais realista à história uma vez que os próprios antepassados repassavam tais fatos com absoluta certeza de que realmente aconteciam) acontecia na pequena cidade de Grão Mogol - MG. Meu tataravô José Ferreira da Paixão morara por um tempo por lá por causa da carreira judiciária.

Enfim, sua mulher, Etelvina Alves, contara à minha avó (sua neta) que corria por lá uma lenda de que todas as sextas-feiras os moradores da tal cidade trancavam-se em suas casas e não saiam até a manhã seguinte; pois exatamente a meia-noite podia-se ouvir barulhos de correntes arrastando no calçamento de pedras, que seriam das almas dos escravos que ali viveram e sofreram nas mãos do barões mineiros.

Encontro macabro
O seguinte "causo" não sei ao certo em que cidade aconteceu. Um viajante chegara na pequena cidadezinha mineira e, durante um baile que havia ocrrido naquela mesma noite, conheceu uma moça, com quem conversou um bom tempo e, encantado, levou-a até sua casa. Ao perceber que a moça havia esquecido o casaco, deixou para devolvê-lo no dia seguinte.
Ao tocar a campainha na tarde seguinte, a mãe da moça o atendeu e, ao tentar devolver, recebeu a notícia de que a moça havia falecido há 5 anos.
Inconformado insistiu na idéia mas, quando a mãe da jovem mostrou o retrato, confirmou ser sua filha falecida, com quem o rapaz havia dançado a noite anterior.

Reais ou não, não deixam de ser excelentes lenda urbanas dignas de uma boa roda em volta da fogueira.

O homem do chapelão de palha

Ah, lembranças! Nesse próximo “causo” que narro a vocês está presente a melhor das lembranças que tenho da ‘aurora de minha vida’: um banquinho, um violão, uma deusa de marfim no auge de seus 50 e poucos... A melhor lembrança que tenho da minha infância é, com certeza, a visualização de minha avó cantando Cartola, Nana Caymmi, “Índia” e, por que não, até mesmo alguns hits sertanejos da época ou até mesmo alguns internacionais? Enfim, não estou aqui para falar de meus devaneios e da linda imagem que guardo dessa mulher que tenho como modelo. Vamos ao causo...

Minha avó costumava cantar no coral do encontro de casais da Igreja, bem como suas Mpb’s em bares que sua turma ia. A famosa “canja”. Branca, translúcida... magra, sempre bem vestida, com fisionomia de boneca e um charme sem igual (como bem me lembro), certaente chamava muita atenção nos palcos. A voz rouca, a afinação e o carisma sempre acabavam fazendo com que os amigos soltassem a famosa frase: “Myrian, canta aquela...”

Dessa vez a turma toda havia combinado de ir em um bar classificado como “mal frequentado”. Mas para um grupo de casais que tinha como intuito apenas se reunir , o “Recanto do Tio” estava pra lá de bom. Como de costume, minha avó acabou subindo no palco pra cantar alguma da época.

A cena inusitada e um tanto quanto constrangedora ocorreu apenas no simples ato de um cavalheiro que, desavisado sobre sua atitude chucra, parou em frente ao palco, bem na mira de minha avó, com as pernas abertas como quem analisasse algo, e com um baita chapelão de palha. “Parecia que ele ia sacar dois revólveres, um de cada lado.” – diz minha avó sobre a situação.

A belíssima dona Myrian continuou cantando sem descer do salto, apesar do chapelão... digo: PAPELÃO do rapaz.
Os homens da turma começaram a se levantar, em estado de alerta, mostrando-se disponíveis para comprar briga.

O mais interessante desse “causo” de beira de estrada é que ele acaba aqui. Não aconteceu nada, o cara não queria nada, ninguém fez nada, ninguém entendeu nada... O caipira simplesmente esperou a música acabar, com o olhar sempre fixo, e foi embora. Uma briga e alguns olhos roxos não seria tão irritantemente esquisito!

21/09/2011

Maternidades Incomuns

Reuni nessa postagens três casos de maternidades e causos incomuns que ocorreram durante partos. Porque dar a vida também inclui medo, risos, aflição e muita (muita mesmo!) história pra contar!

Obstetra Carniceiro
Contextualizem: década de 70, apenas uma maternidade na lendária Taubaté, estando a mesma em precárias condições. Após uma gravidez tranquila enfim havia chegado o tão esperado dia de uma de minhas tias-avós gêmeas, Martha Paixão, dar à luz a menina Paula. A família toda, irmãos, pais e marido, esperavam do lado de fora da sala de parto. Para a surpresa de todos, um funcionário do hospital passou com um serrote nas mãos entrando assim na sala em que Martha estava. Após um bom tempo de apreensão, foi explicado à família que a mesa de madeira onde ela estava dando à luz havia quebrado uma das pernas. E você aí com medo do dentista hein?

Papo de Elevador
Esse "causo" eu não chamaria nem mesmo de 'das antigas'. Aconteceu no nascimento de minha priminha Maitê, que tem hoje 11 anos e, apesar de não ter presenciado a cena, lembro-me bem dos risos provocados na família toda naquele mesmo dia. Meus avós foram visitar a filha Marianne que havia acabado de dar à luz, e meu avô Fausto, ao entrar no elevador, encontrou um conhecido. Elevador lotado, aquele clima de "será que vai chover?", quando o conhecido pergunta:
- E aí Fausto, tá aqui no hospital, tá com alguém doente na família?
- Não, não. - explica meu avô - Viemos visitar minha netinha na maternidade. É a cara do avô!
E após uma breve pausa o conhecido brincalhão aproveitou a oportunidade e completou:
- Não tem problema, tendo saúde ta bom!
E aquele clima de constrangimento logo foi quebrado por inúmeras risadas, inclusive as de meu avô.

Bercinho Maldito
O terceiro "causo" é um relato breve da aflição que minha avó Myrian passou durante o tempo que esteve no hospital após o parto de minha mãe. No período da tarde, uma movimentação nos corredores começou a deixar minha avó aflita. Ela escutava uma voz de mulher dizendo algo como "Estão matando o meu bebê!!!", mas não podia sair da cama para ver o que realmente estava ocorrendo. Mais tarde, naquele mesmo dia, ela teve a informação de que um dos bebês da maternidade havia escorregado no bercinho de uma maneira que sua cabeça havia ficado presa entre dois pedaços de madeira da grade. Ficou tão bem encaixada que tiveram que serrar uma das grades do tal bercinho. Causo comum para quem lê e clássico para quem presenciou.

20/05/2011

Bodas de Ouro: Fausto e Myrian


Há exatamente 50 anos acontecia o casamento que deu origem a todas as histórias que hoje tenho o prazer de repassar às pessoas que amo.
Confesso que não sei exatamente como começar a falar sobre o orgulho que sinto ao ver quem meus avós foram um dos poucos casais que em meio século de convivência, tiveram pouquíssimos momentos de desentendimento.


Carrego comigo muitas lembranças de muitos momentos que passei com essas pessoas admiráveis, que hoje completam exatamente 50 anos de casamento e que, devo dizer, durante a infância foram como verdadeiros pais para mim. O pouco que sei, na teoria, sobre relacionamento, posso dizer que tirei da convivência com esse casal modelo, que tem como base três importantes pontos a ressaltar sobre "o que é conviver BEM"... confiança, respeito e admiração.




Confundo-me toda nas palavras quando vou falar deles. Não é a primeira vez. É difícil controlar um turbilhão de emoções diante de história tão linda. Mil coisas me vêm à cabeça, mil imagens, mil situações, mas só posso dizer que, nenhum discurso no mundo substitui a cena que sempre levarei guardada comigo das duas pessoas mais lindas e unidas que já conheci, dançando pelo salão, como se estivessem nos anos 50; independente da época em que estivéssemos. É essa a imagem que guardo de meus avós... as pessoas doces e românticas dos anos dourados que participavam de concursos de danças e caminhavam de mãos dadas em volta do coreto da praça. Ela, a jovem de 14 anos com seu primeiro e único amor, para toda vida. Ele, o rapaz trabalhador, de família pobre, que lutou para ficar eternamente ao lado de sua almejada princesinha. E assim venceram juntos.


E hoje, após 50 anos de união e resultado desse "conto de fadas" (por que não?), estou aqui para eternizar cada ensinamento incrível que traduzem os olhares dessas pessoas lindas, simples e eternas.
Amo vocês meus avós lindíssimos, eternamente! ♥