25/12/2008

Lembranças sobre Guerra Paixão

Conforme prometi na postagem anterior, relato algora algo que minha mãe me conta desde que eu era apenas uma menina. Não cheguei a conhecer meu bisavô Luiz, digo... não me lembro dele, afinal, tinha apenas alguns meses quando ele faleceu, e como minha mãe sempre me disse, ele "esperou meu nascimento para nos deixar". Meu bisavô (embora prefira chamá-lo apenas de avô), sempre fora um completo admirador das travessuras de minha mãe, posso concluir que ela sempre fora sua neta preferida (digamos assim). Enquanto minha bisavó, de certo modo, preferia as netas comportadas e educadas, meu avô deliciava-se ao assistir as traquinagens de minha mãe, uma menina-moleca, e passava horas conversando com ela.
No fim de sua vida, meu bisavô já estava cego, não completamente, mas enxergava apenas vultos e sombras. Assim que minha mãe engravidou, aos dezoito anos, para poupá-lo, todos decidiram não contar logo de início. Ele morava na casa de minha avó Myrian, portanto seria uma missão extremamente complicada ocultar a gravidez.
Minha mãe conta que, em meio a cochichos e comentários particulares, meu bisavô a chamou em um canto e disse a seguinte frase: "Milene, eu estou cego, mas não sou burro, eu sei que você está grávida. Vamos, me dê um abraço minha menina!", e surpreendeu a todos com tal gesto, uma vez que sempre mantivera a imagem de um homem tradicional e sério, muitas vezes até mesmo rígido ao extremo.
Hoje, meus familiares dizem que minha veia artística e meus gostos pela música, poesia e escrita eu herdei dele. Não duvido, muito pelo contrário. Só lamento não ter conhecido um dos maiores poetas da família Paixão, cuja antítese do sobrenome combina perfeitamente com sua história de Vida.

Luiz Guerra Paixão - um nome, uma história. Guerra durante a juventude, quando batalhou para criar seu filho e suas filhas rigorosamente, sempre preocupado com a educação, tentando ignorar a dor da perda de seu filho caçula; e Paixão, que deixou para trás, não só em nossos nomes, mas em nossas lembranças.

Luiz Guerra Paixão - O poeta de Diamantina

Pai da mulher que é fonte da maioria dos relatos (ou "causos", como prefiro chamar), Luiz Guerra Paixão, filho de José Ferreira da Paixão e Etelvina Alves Guerra, nasceu em uma família humilde, de origem muito rica. José Ferreira da Paixão perdeu tudo assim que decidiu optar pelo casamento com Etelvina.
Luiz foi estudar no Rio de Janeiro pois em sua cidade, Três Corações-MG, havia apenas um grupo de estudos para crianças e Luiz já era bem mais velho. Enquanto estava no Rio de Janeiro (segundo meu tio Marcelo Paixão, seu neto) Luiz morou em uma rua da Vascaínos, fazendo assim com que o Vasco se tornasse seu time carioca favorito.
Em um carnaval, foi para Minas Gerais e acabou se apaixonando por Zina Sisti.
Zina e Luiz namoraram muitos anos através de cartas, mais tarde se casaram e foram morar em Itajubá, onde tiveram duas filhas gêmeas. Algum tempo depois foram para Três Corações, cidade mineira, onde tiveram mais três filhos, um deles faleceu com apenas um ano.
Luiz pediu a transferência de seu emprego para Taubaté, interior de São Paulo, para dar um a educação melhor à seus filhos. Em Taubaté tiveram mais uma filha.
Um tempo depois Luiz entrou para o CLUBE DA POESIA, pois anteriormente havia escrito alguns poemas.
Escreveu um livro chamado "Assim caminha a humanidade". Faleceu por volta de 92/93 , alguns meses após meu nascimento. (Minha próxima postagem será sobre uma breve história que me emociona muito, contada por minha mãe!). Meu poema favorito, de sua autoria, segue abaixo.

Sempre Vivas

Foi n'um dia de festas na Mansão,

Certamente o dos anos de Maria...
Os Anjos, trabalhando em profusão,
Ornamentavam o céu, com alegria.

Para brindarem à Virgem Mãe bondosa,
Eterna advogada dos mortais,
Colheram os Anjos um buquê de rosas,
Sempre-Vivas e cravos celestiais.

Nesse dia a sublime medianeira,
Em graças transformando os mimos seus,
Despejou flores, pela terra inteira.

E as sementes da flor mais pequenina,
A sempre-viva dos jardins de Deus,
Foram cair na minha DIAMANTINA.

Luiz Guerra Paixão

Ninguém fez mais que o Juquinha!

O causo a seguir é um causo bobo que, de certo, não acrescentará nada em suas vidas, mas se você é um desocupado interessado em lazer barato, assim como eu, vale a pena ler até o fim. Garanto que arranca boas risadas
Na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, houve um prefeito na década de 60, conhecido vulgarmente como Juquinha. Acredito que não haja visitantes taubateanos, e os outros certamente não hão de se lembrar. Mas enfim, vamos ao que interessa.
A fim de se reeleger, o ex-prefeito Juquinha criou o seguinte slogan: "Ninguém fez mais que o Juquinha!".
Num determinado dia, meu avô voltava do mercado municipal, do centro da cidade, quando avistou um monte de fezes de cavalo com uma plaquinha que continha o slogan do prefeito... "Ninguém fez mais que o Juquinha!" Para bom entendedor, meia palavra já basta, mas a frase completa com certeza arranca mais risos da situação. E uma coisa é certa... se o inventor de tal obra usasse sua criatividade para revolucionar o mundo, com certeza faria mais que o Juquinha!

Olha o fio!

Não poderia deixar de relatar esse fato que durante muito tempo me fizera rir, a cena em si já aparenta ser um tanto absurda, tente imaginar com cada detalhe, o cenário e a situação.
Pois bem, iria acontecer uma procissão em homenagem a São Sebastião na pequena cidade de São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo. A fim de destacar tal evento, os organizadores decidiram fazer uma "estátua- viva" do santo, algo muito criativo e inovador até então.

Havia uma senhora na cidade que podia ser considerada uma das fiéis mais religiosas e adoradoras da igreja Católica, que, ao saber da intenção, acabou oferecendo para que seu filho fosse a tal "estátua-viva", já que era um rapaz muito bonito, que, segundo ela, tinha algo de santo em sua aparência física.

Logo, concordaram com a senhora, os organizadores entusiasmados começaram a planejar como fariam com o rapaz, como o amarrariam no pedaço de madeira, como seria a sua caracterização etc. O único que não gostara muito da idéia fora o próprio rapaz. Imagine um jovem, no auge de sua mocidade, vestir-se de santo e desfilar pela cidade em cima de um andor, com todos os seus colegas observando. Definitivamente, seria um tanto constrangedor, mas, a pedido da mãe, o rapaz acabou cedendo.
Ao chegar a hora, o rapaz foi amarrado em um tronco de madeira e colocaram algumas flechas de plástico como parte da caracterização.

Ao decorrer da procissão, o rapaz observou que a alguns metros a frente, havia um fio elétrico que, caso as pessoas que o carregavam não abaixassem o andor, encostaria nele, causando um grande estrago. Prevendo o que aconteceria, o rapaz olhou para trás ainda amarrado e tentou avisar a banda que estava compenetrada em animar o evento. Não houve sucesso em tal operação. Tentou avisar outra vez, e outra... mas de nada adiantava. A banda continuava a tocar, o fio se aproximava e seu desespero aumentava. Gritara diversas vezes a mesma frase: "Olha o fio!!", e infelizmente fracassara em todas as tentativas de se salvar.

Quando a madeira em que estava amarrado finalmente encostou no fio elétrico, começaram a sair faíscas por todos os lados, o curto circuito foi enorme e assombroso. Por sorte o rapaz não se feriu, mas, extremamente nervoso, conseguiu se soltar da corda que o amarrava e saltou do andor deixando escapar diversas formas de expressão como "Filho da puta! Que merda! Eu estava tentando avisar!", observado pela perplexa platéia que agora, apesar de fiéis, condenavam com os olhares o santo boca-suja!

03/12/2008

Apresentação do baú e da autora


Sou Malu Paixão Garcez, jovem estudante de teatro com costumes mineiros e traços italianos. Nasci em outubro de 92, cresci na casa de meus avós (literalmente) - totalmente fora dos padrões convencionais, e fui criada ouvindo as histórias mirabolantes e fatos absurdos que marcaram a vida de minha avó Myrian. Desde pequena tenho uma ligação muito forte com, não só o meu passado (que, diga-se de passagem, não é tão longo assim), mas também com o passado daqueles que convivem comigo. Talvez por esse mesmo motivo meu principal medo seja esquecer as histórias tão ricas, interessantes e detalhadas que fui conhecendo ao longo de minha convivência com minha maravilhosa avó, ou pior: não ter criatividade suficiente para descrever minhas próprias histórias. Esses são os motivos principais pelos quais hoje escrevo e relato com grande dedicação essas "novelas de época da vida real" (acreditem se quiser!). Espero que, como eu, sintam-se obrigados a também deixar seu legado, mesmo que seja em forma de causos, risos e emoções. Como muitos dizem que 'quem vive de passado é museu!', aproveito a deixa para convidá-los a conhecer o museu mais interessante que liga o passado de ilustres desconhecidos às nossas realidades contemporâneas. Sintam-se a vontade para mexer e vasculhar esse baú de fantasias coloridas que é o Baú da Vovó.