17/02/2009

Como arranjar um bom marido

Abaixo mais um pequeno 'causo' contado pela minha avó, em que recorda a vergonha pela qual passara na época...
Pois bem, aos seus 12 anos de idade respondeu a uma enquete de um concurso que encontrou em uma revista qualquer (Coisa de pré-adolescente, convenhamos!).
Consistia em formular um texto respondendo a seguinte pergunta: "Como arranjar um bom marido?".

É certo que uma garota de apenas 12 anos não seja entendida do assunto, mas sua ousadia falou mais alto, e a vontade de conseguir o tão cobiçado prêmio de 50 cruzeiros era tanta que arriscou expor seu vago conhecimento enviando a elaborada resposta:

"Minha amiga. Seja sincera, leal, compreensiva e econômica o quanto possível e fique certa de que arranjará um bom marido e será feliz!

Myrian Sisti Paixão
Taubaté - São Paulo"


Me admira o fato de ela saber até hoje as palavras corretas que usou na tal carta, mas quem conhece minha avó pessoalmente acostuma-se com a memória extraordinária que ela tem. Digo isto pois os parentes mais próximos confirmam!

Passaram-se dois anos e minha avó, então aos 14, estava no início de seu namoro com meu avô Fausto. Era tímida e até mesmo um tanto introvertida.

Em um determinado dia, meu avô foi recebido com 'deboches saudáveis' e risos pelos seus colegas de repartição, que afirmavam, com o exemplar da tal revista nas mãos, que ele havia sido literalmente "caçado" para um casamento.

A pobre nem ao menos teve um buraco para enfiar a cara no chão assim que o novo namorado levou a revista até ela!

Hoje, após quase 50 anos de casamento, diante de qualquer gasto elevado (especialidade das mulheres da família), meu avô ainda brinca, dizendo: " Olha Myrian, você havia prometido na carta ser econômica!", e minha avó retribui a brincadeira afirmando "Prometi!... o quanto possível. E claro... diante de um bom marido!"

Ai Senhor! E eu que aguento esses dois!

06/02/2009

Miss Três Corações


Acabei de lembrar um causo que minha avó sempre conta em rodas sociais e confirmei com ela como tudo ocorreu. É curtinho, assim como os atos falhos do cotidiano, portanto, lá vai...
Na pequena cidade de Três Corações, no sul de Minas Gerais (cidade em que minha avó nasceu!), houve um concurso que organizaram para eleger a moça mais bela da cidade, nomeando-a "Miss Três Corações", e aproveitaram para descontrair um pouco a tensão das candidatas elegendo também o homem mais feio da cidade.

Ao acabar o concurso, os vencedores se encontraram e o infeliz rapaz que havia ganhado como o mais feio, em um ato gentil, parabenizou a nova Miss da cidade afirmando algo como: "Parabéns pelo título, você mereceu!", e a pobre moça desavisada devolveu o elogio a sua maneira dizendo: "Obrigada, o senhor também!".
Façamos agora um concurso de Q.I. !

Abaixo a foto da mineira Carole, amiga de minha bisavó Zina, ganhadora do concurso de miss Três Corações e protagonista da história.

03/02/2009

Maria Galinha

Gafe. Palavra conhecida por todos e realizada por muitos. Geralmente quem fala bastante e adora "contar papo" vive caindo no constrangimento. Pobre do meu bisavô, que era uma pessoa extremamente calada e passou por uma situação um tanto quanto desagradável.
Meu bisavô Cyro, pai de meu avô Fausto, era provavelmente, de sua família o mais quieto. Pouco falava, assim como meu avô. Passava horas ouvindo os comentários e observando sem dizer uma palavra.

Em uma tarde, certamente na década de 50, estava reunido um grupo de homens de todas as idades em frente ao barbeiro da cidade... na praça central... ou algo assim. Como de costume, os amigos se reuniam para comentar sobre esportes, política e, principalmente, das moças que por lá passavam desacompanhadas. Minha avó inclusive conta que a rua do barbeiro, onde haviam alguns bares, era um ponto quase proibido para as moças jovens e solteiras; ela morria de medo de passar por lá, já que todos os dias formavam-se grupos masculinos de discussão. Enfim. Estavam os homens falando sobre a reputação de certas moças da cidade e aleatoriamente cada um contava um caso. Surgiu então o assunto de casamento e os homens começaram a radicalizar, afirmando que moças de má reputação não deveriam casar-se, para aprenderem a respeitar a família e a si próprias. Outros diziam que as moças mais "fogosas" também estavam se casando, e havia se tornado algo extremamente comum os rapazes trocarem 'moças de família' pelas conhecidas atualmente como "piriguetes". Conversa vai, conversa vem... meu bisavô decidiu opinar, em um raro momento de participação. Virou-se para os amigos e comentou algo como: "Pois hoje é a coisa mais comum! Até mesmo a 'Maria Galinha' casou! Lembram-se dela?". De imediato um dos homens do grupo levantou-se e respondeu-lhe atravessadamente: "Pois é! Casou-se comigo!".

Enfim meus queridos amigos-blogueiros, seja você quieto ou frenético, queira ou não, é quase impossível escapar dos pequenos detalhes/deslizes que entram para a história e passam de geração em geração.

02/02/2009

O testamento

Bem... contarei agora a história que fiquei devendo na postagem anterior.

Meu trisavô, José Ferreira da Paixão, (juiz de direito - para quem não leu a postagem anterior!) contava que, na época em que as viagens ainda eram feitas a cavalo, as casas ficavam em longas distâncias umas das outras (como se fossem fazendas ou chalés), pouco antes de ir se deitar, quase de madrugada, um homem bateu em sua porta. Sem muitas opções, decidiu abrir.

O homem parecia atormentado e José mal podia vê-lo na escuridão da noite, mesmo porque segurava apenas uma vela em sua mão, e não havia motivo para se aproximarem. Insistiu durante um longo tempo para que o juiz fizesse seu testamento naquela mesma hora, que o viajante havia vindo de longe somente para isso e não poderia voltar outro dia.

José Ferreira tentou explicar que era tarde, pediu que o viajante dormisse aquela noite em um dos chalés que na manhã seguinte, logo cedo, faria seu testamento para que ele pudesse seguir viagem; mas o homem insistiu, queria que fosse naquele mesmo momento e dizia com convicção que não poderia ser mais tarde. Como único juiz da região, teve que resolver o problema do tal viajante misterioso, sozinho.

Fez o tão esperado testamento e o homem finalmente partiu.
Algum tempo depois, ao conversar com alguns colegas, meu trisavô acabou por descobrir que aquele mesmo homem que havia batido em sua porta naquela noite insistindo para que fizesse imediatamente seu testamento, havia morrido dias antes da visita que fizera à sua casa. Relato intrigante, tratando-se da respeitosa seriedade de José Ferreira da Paixão.


José Ferreira da Paixão e Etelvina Alves Guerra

Para que entendam a próxima história é necessário que eu apresente esse meu "trisavô", materno de minha parte, paterno da parte de minha avó, explico...
José Ferreira da Paixão era avô paterno de minha avó (pai de seu pai, Luiz Guerra), e filho de um professor do Colégio D. Pedro I (Se não me engano) em Petrópolis. (Infelizmente não consegui pesquisar tão a fundo a pónto de encontrar seu nome, sei apenas que o pai de José Ferreira era de uma família muito rica e conhecida na cidade.)
Em uma época em que pouquíssimas pessoas completavam o ensino superior, meu trisavô, José Ferreira, concluiu o curso de direito, tornando-se assim juiz de direito, e orgulho de seus pais.
Ao conhecer a mineira Etelvina Alves Guerra, decidiu abandonar a vida que tinha em Petrópolis e mudar-se para Minas Gerais. Estava decidido a passar o resto de sua vida com a amada. E foi exatamente isso que aconteceu. Deixou a família, a fortuna, o reconhecimento, e foi viver em uma cidade pequena no interior de Minas. Seguiu a carreira judiciária exercendo o cargo de juiz de direito em várias cidadezinhas como Grão Mogol, Manhuassu, Diamantina e Três Corações.

Arranjou uma carta de apresentação como juiz para o sul de Minas, assinada pelo próprio jurista e diplomata Ruy Barbosa (que inclusive faleceu na cidade de Petrópolis). Uma cópia da carta estava com minha mãe até tempos atrás, e a original foi levada para a Faculdade de Letras que minha mãe cursava para ser restaurada, mas infelizmente nunca mais a encontramos.

Tiveram quatro filhos (já citados em outras postagens). Meu bisavô Luiz, minha tia-bisavó Maria Luiza, e meus tios-bisavós Mario e José Ferreira da Paixão Filho. (Clique nos links para obter mais informações!).

Apesar do pouco contato afetuoso que minha avó Myrian fora privada de manter com os avós, por viver conforme limitavam os costumes e valores de seu pai, ainda lembra-se perfeitamente da figura de seu avô José Ferreira e de seu gênio sério e imponente. Ao contrário de seu avô italiano Menotti, José Ferreira era sério e introvertido, contava poucas histórias, dentre elas está um dos "causos" mais assustadores de minha família (principalmente pelo fato de ter sido contado por essa figura quieta e objetiva, que jamais inventara qualquer brincadeira durante toda sua vida. Leia a história na próxima postagem!

Etelvina Alves Guerra, a "avó mineira de minha avó Myrian" fora uma mãe muito severa com os filhos, chegando a aplicar surras até mesmo com vara de marmelo, segundo minha bisavó Zina (sua filha). Ao contrário de seu perfil marcado de mãe-exigente, Etelvina tornou-se uma avó calma, tranquila, mansa...
Minha avó Myrian conta que morou durante um tempo com essa avó e que inclusive literalmente nascera na cama de Etelvina! O parto foi realizado ali mesmo!

Como tinha a situação financeira muito melhor do que a avó italiana Esther, Etelvina não se ocupava com os afazeres domésticos, tinha uma empregada que trabalhava até mesmo aos domingos limpando a casa e cozinhando; então ocupava seu tempo fazendo crochês e outros hobbies.
Extremamente religiosa, também fazia parte de uma Congregação de Senhoras Católicas. Ao enviuvar passou a morar na casa de meu bisavô Luiz Guerra Paixão, onde relatava "causos" de sua vida à neta Myrian, assim como a mesma tem feito comigo.
(Foto: José Ferreira da Paixão e Etelvina Alves Guerra.)