25/12/2010

O último baile;

No último ano profissional de uma das mulheres mais incríveis que conheci, minha avó, Myrian Paixão, aconteceu um dos fatos mais novelísticos do qual minha família deva se orgulhar. Prova de sua força e determinação, eis aqui o relato da própria, do último baile de formatura...

*Os nomes não serão citados. Qualquer semelhança pode ser pura coincidência. Ou não.

“Eu lecionava no último ano do curso de magistério do Colégio Estadual Monteiro Lobato, e fui solicitada para promover a formatura dos alunos, tendo em vista que todos os professores se recusavam a aceitar a tarefa, por ser muito cansativa e não remunerada. A formatura não era promovida pela Estado. Era financiada pelos próprios alunos, sem nenhuma ajuda de custo nem mesmo do colégio.
Aceitei e, durante cinco anos, foram feitas lindas solenidades de formatura, com baile, colação de grau, jantares, decoração e som da melhor qualidade. No último ano, já havia assinado o contrato com o clube Associação dos Empregados do Comércio de Taubaté, onde paguei uma taxa bem elevada, baseada em OTN (o valor poderia ser alterado). Já havia pago esse valor com direito ao aluguel do salão, orquestra, decoração, enfim... tudo para o maior sucesso do baile.

Fazia parte do acordo a entrega dos convites. Quando fui pegá-los para distribuir aos alunos, tive a ingrata insatisfação de ver que constava em cada convite os dizeres: “Colaboração do Deputado Federal Fulano de tal.” Chamei atenção do presidente do clube que os convites haviam saído com um engano, sendo que o deputado citado não havia ajudado com nem um centavo. Ao ser interpelado ele me disse que isso havia sido ordem do ‘meu chefe’, respondi então que não tinha chefe algum, e ele insistiu dizendo que meu chefe era o delegado de ensino. Expliquei que este também não era meu chefe pois a formatura estava sendo bancada pelo bolso dos próprios alunos. Todo mês eles pagavam, e alguns até mesmo faziam um esforço enorme para juntar o dinheiro, tendo em vista que o colégio era estadual e o baile sempre apresentava detalhes da melhor qualidade. Indignado com minha resposta ele recolheu os convites e prometeu me entregar no outro dia. Fui lá sucessivas vezes e ele não me entregava os convites. Minha neta ainda era um bebê, e eu andava para cima e para baixo com ela no colo, correndo atrás do presidente da Associação para conseguir os convites, mas cada hora inventavam uma desculpa, ele nunca estava disponível. Eu estava cada vez mais exausta. Fui até a secretaria e falei a todos os funcionários que estavam por lá: “Vocês digam ao Fulano que quero amanhã esses convites na minha mão, ou na próxima quinta-feira, no churrasco de formatura, vou contar aos alunos tudo o que estou passando, e colocar o deputado sujeito a perder votos de cerca de 300 famílias!” Isso tudo em ano de eleição.


No dia seguinte, quando cheguei, os convites estavam prontinhos, encaixotados na secretaria da Associação.e mandei para uma tipografia para cortar dos convites o apoio ao deputado federal. Um certo dia, meu filho mais velho atendeu um telefonema e me passou assustado, dizendo que era a secretária do Deputado Federal, e que ele estava procurando pela professora Myrian Paixão. Nada de bom saiu no telefonema. Começou dizendo que havia jogado bola por um tempão com meu marido, que éramos vizinhos de camarote em todos os carnavais do clube, com certeza queria que eu desistisse de tirar o nome dele da jogada, mas isso eu não achava justo envolver uma propaganda enganosa no baile dos alunos.Conversando com o deputado eu fiz questão de esclarecer que não havia nada de pessoal no fato mesmo porque eu, como professora de Filosofia Política no colegial, me abstinha de citar nomes de qualquer candidato que fosse, mesmo trabalhando com tal matéria. O deputado então percebeu que eu não estava para brincadeira e finalmente ofereceu agressivamente recolher os convites para tirar o nome dele. Eu disse então que ia poupá-lo desse trabalho porque já havia mandado fazer isso.

O pai de uma das alunas minhas era vereador de Taubaté e reunia políticos na casa dele. A própria aluna, tendo um senso de justiça elogiável, passou para o meu lado. Ela me trazia informações e, chegou a afirmar que saíram murros na mesa algumas vezes, tamanho ódio que sentiam por mim. Em uma das reuniões ela ouvi o pai dela dizer que eu era uma “professora em extinção”, interpretei de modo que eles estariam “exterminando” todos que fossem como eu. Foi através dessa aluna que eu soube que em uma das reuniões eles estavam armando de colocar um telão e passar um filme do deputado no meio do baile. Dei ordens para que não acontecesse isso, ameaçando o presidente da Associação, caso ele insistisse, de colocar os alunos a par de todas irregularidades, coisa que eu não havia feito ainda porque não era de meu interesse.

No dia do baile era de praxe os alunos serem chamados um a um pelo presidente do clube. Na hora certa, mandei que formassem filas. Estava muito calor, eles ficaram na fila mais de meia hora, pois eu não encontrava o presidente do clube, ele estava fugindo o tempo todo. A orquestra parava toda hora e nada. Fui até ele e ameacei subir ao palco e contar tudo o que estava acontecendo. Ele respondeu agressivamente, em um estado avançado de adrenalina, que “Não vou chamar porque tem muita gente e vai estragar a minha festa “, eu também estava com os nervos à flor da pele respondi: “A ‘sua’ festa não!!! A festa é minha, eu corri atrás de tudo, EU que organizei! “. Nesse momento ele subiu as escadas do palco, lado a lado comigo, com os ombros colados, querendo pegar o microfone antes, para fazer um discurso a favor do deputado. Ao chegar em frente ao microfone ele não teve coragem e eu, rapidamente peguei e entreguei ao rapaz da orquestra, pedi então que ele chamasse os alunos, nome a nome.


O baile se realizou com grande sucesso. Fui muito elogiada. Fiquei sabendo que todas as outras escolas estaduais tiveram que colocar o telão e passar o vídeo-propaganda do deputado, menos a minha. A partir daí foi uma sucessão de boicotes. Boicotaram nosso camarote de carnaval, porque era do lado do tal deputado, e ele exigiu que ficássemos na pista. Boicotaram o som de meu filho Dj em um evento, apenas por ser meu filho. Minha filha professora prestou um concurso onde tirou o primeiro lugar e não foi chamada. Essa mesma filha, entre 800 candidatos, tirou terceiro lugar em um outro concurso, e já estava trabalhando em um emprego que ela adorava, como recreadora de crianças em uma creche em Tremembé, quando foi dispensada sem motivos.
No ano seguinte, uma outra professora pegou a difícil tarefa de organizar o baile. Eu tinha um cadernão onde anotava todas as contas e despesas, e apresentava todos os gastos e aplicações aos alunos. Essa professora não anotou e não apresentou nenhum comprovante, acabou roubando descaradamente a verba do baile. A partir desse ano então a Secretaria de Ensino cortou as comemorações de formatura. Os colégios estaduais não tiveram mais bailes.

Cheguei a ter medo, por meus filhos, eu tinha uma família, não podia entrar em guerra . Alguns amigos vieram me falar que fechei meu último ano profissional com ‘chave-de-ouro’. E assim ganhei, com muito orgulho, muitos inimigos e admiradores.”

Um comentário:

Poupée Amélie™ disse...

Pois é...
O tempo passa, o mundo gira e os políticos continuam os mesmos: sem o mínimo de decência.

Ah! Vi que colocou meu comentário no mural(rs).

BjO*