04/05/2011

Zé Baiano

Gostaria de deixar aqui registrada apenas uma apresentação breve de uma figura marcante da minha infância que, apesar de não ter o mesmo sangue, pode ser considerado da família. José Rodrigues do Monte, ou "Zé Baiano", como era conhecido pelos amigos foi uma das únicas pessoas com que tive o contato e nunca, repito: NUNCA presenciei em um momento de tensão, reflexão que fosse! Estava sempre sorrindo!
Zé Baiano e Arlete, sua esposa, frequentavam o mesmo encontro de casais da Igreja que meus avós Fausto e Myrian frequentavam. Minha avó tocava violão nas missas realizadas nos encontros e tanto o Zé Baiano quanto a Arlete trabalhavam na cozinha. Cada casal ajudava como podia, exercendo a função que sabia. Até então uma das amizades mais puras e grandiosas que já tive o prazer de presenciar ainda não havia começado.

Em um certo dia, uma amiga de minha avó foi chamá-la pois havia um homem trabalhando na cozinha que tinha muita vontade de ouví-la tocar violão, já que todos os casais faziam uma grande propaganda de sua voz rouca e seu violão intimista. Minha avó foi até lá, chegou naquela cozinha enorme e disse "Quem pediu pra eu vir aqui?"; e um rapaz humilde, tímido, com um jeito meio quietão se manifestou e foi até ela. Minha avó completou "Que música você quer que eu toque?" e ele, sem ao menos pensar, pediu: "Romaria".
E minha avó enfim começou... "O meu pai foi peão, minha mãe solidão..."
Aí nasceu a amizade entre os dois casais, que durou anos e anos, sem interesse algum.

Zé Baiano era a mais pura representação da doçura. Operário, trabalhador, sempre sorridente. Era tanta alegria que chegava a irritar. Sim, eu me irritava, talvez por ter sido uma criança com uma pitada de amarguice a mais, enfim...

Minha avó me contou que a turma deles começou em uma determinada época a deixar transparecer o veneno que todo grupo social tem, e começaram a ver com outros olhos essa grande amizade da minha avó com o Zé Baiano. Gente má ve maldade em tudo, nada de assustador até então. Minha avó chamou meu avô e a esposa dele para conversarem, os quatro, sobre o assunto e, tamanha a inocência do amigo, ele ainda demorou para entender a questão. Foi o último a perceber a maldade da situação e ainda assim não acreditou, e deu risada.

Ele justificava-se o tempo inteiro com o seguinte argumento: "Myrian, eu sei que as pessoas falam que é estranho eu ser muito seu fã, mas é que no primeiro momento em que te vi me lemrei de uma professorinha muito querida que eu tinha lá no Ceará." Mostrando uma inocência ainda maior.

Era certamente uma pessoa iluminada. Talvez iluminada demais para esse mundo. Quando eu tinha por volta de meus sete ou oito anos de idade me lembro de estar sentada na escada de madeira da casa da minha avó quando ela e minha mãe me contaram. Ele havia ficado trabalhando até um pouquinho mais tarde no dia anterior e falou ao outro funcionário que fecharia a fábrica, para que o colega fosse embora descansar. Como estava sozinho, ninguém pode ajudá-lo quando a camisa enroscou na máquina em que estava trabalhando. Devido ao tamanho da máquina e sua idade avançada não aguentou. Faleceu e ficamos sabendo naquele mesmo dia.

A notícia saiu no jornal local, apareceu na mídia impressa e foi muito comentada. Lembro-me da minha avó conseguir contar a maior parte da história para mim, pois minha mãe chorava muito. O sofrimento da minha avó era aparente, estava reprimido, mas era presente. Ela não chora. Mas poucas vezes vi minha avó numa fossa tão grande quanto naquela época. Naquele mesmo dia fui para a rede de balanço, na varanda e chorei.
Foi a primeira vez em que me dei conta de que as pessoas vão realmente embora.

Vi poucas vezes a viúva depois disso. Eles haviam participado de várias festas de aniversário minhas. Eu havia sido o xodózinho dos jantares dos encontros de casais durante todos aqueles anos. O tempo parece apagar certas lembranças...mas as gargalhadas do Zé Baiano naqueles jantares e os apertões nas bochechas que ele me dava são inesquecíveis.

3 comentários:

alessandra disse...

Zé Baiano.............presente na minha adolescência!!!!! Homem simples mas de muito valor.Sua passagem foi díficil para todos,meu pai um homem forte,chorou como criança.Lembro bem dessa cena.....Foi uma
Linda homenagem...parabéns Malú.

Alessandra(filha Neide e Marmo)

Paulo Giovanni Estevam disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Giovanni Estevam disse...

É, Malu... é impressionante como a vida ocasionalmente se registra muito diferente do que aquilo que é propagado. Às vezes, as pessoas mais simples aos olhos de todos acabam demonstrando mais sabedoria do que se pode esperar dos ditos "letrados".
Sua avó também deve ser uma pessoa excepcional, pois é preciso um certo grau de estado de arte da vivência para saber reconhecê-los.

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