28/04/2012

Correntes de Grão Mogol

Eis agora os famosos "causos de quentá fogo", como diziam os parentes mineiros de minha avó. Chamados assim por causa das comuns reuniões de família e vizinhos durante as noites em volta do fogão à lenha, principalmente nas noites mais frias. Encontramos aqui o que muitos chamam também de "lendas urbanas", "cultura popular" ou qualquer outro termo que se encaixe na antiga história de "quem conta um conto aumenta um ponto" e que eu, particularmente, adoro!

Correntes de Grão Mogol
O primeiro relato (prefiro chamar assim para dar um tom mais realista à história uma vez que os próprios antepassados repassavam tais fatos com absoluta certeza de que realmente aconteciam) acontecia na pequena cidade de Grão Mogol - MG. Meu tataravô José Ferreira da Paixão morara por um tempo por lá por causa da carreira judiciária.

Enfim, sua mulher, Etelvina Alves, contara à minha avó (sua neta) que corria por lá uma lenda de que todas as sextas-feiras os moradores da tal cidade trancavam-se em suas casas e não saiam até a manhã seguinte; pois exatamente a meia-noite podia-se ouvir barulhos de correntes arrastando no calçamento de pedras, que seriam das almas dos escravos que ali viveram e sofreram nas mãos do barões mineiros.

Encontro macabro
O seguinte "causo" não sei ao certo em que cidade aconteceu. Um viajante chegara na pequena cidadezinha mineira e, durante um baile que havia ocrrido naquela mesma noite, conheceu uma moça, com quem conversou um bom tempo e, encantado, levou-a até sua casa. Ao perceber que a moça havia esquecido o casaco, deixou para devolvê-lo no dia seguinte.
Ao tocar a campainha na tarde seguinte, a mãe da moça o atendeu e, ao tentar devolver, recebeu a notícia de que a moça havia falecido há 5 anos.
Inconformado insistiu na idéia mas, quando a mãe da jovem mostrou o retrato, confirmou ser sua filha falecida, com quem o rapaz havia dançado a noite anterior.

Reais ou não, não deixam de ser excelentes lenda urbanas dignas de uma boa roda em volta da fogueira.

O homem do chapelão de palha

Ah, lembranças! Nesse próximo “causo” que narro a vocês está presente a melhor das lembranças que tenho da ‘aurora de minha vida’: um banquinho, um violão, uma deusa de marfim no auge de seus 50 e poucos... A melhor lembrança que tenho da minha infância é, com certeza, a visualização de minha avó cantando Cartola, Nana Caymmi, “Índia” e, por que não, até mesmo alguns hits sertanejos da época ou até mesmo alguns internacionais? Enfim, não estou aqui para falar de meus devaneios e da linda imagem que guardo dessa mulher que tenho como modelo. Vamos ao causo...

Minha avó costumava cantar no coral do encontro de casais da Igreja, bem como suas Mpb’s em bares que sua turma ia. A famosa “canja”. Branca, translúcida... magra, sempre bem vestida, com fisionomia de boneca e um charme sem igual (como bem me lembro), certaente chamava muita atenção nos palcos. A voz rouca, a afinação e o carisma sempre acabavam fazendo com que os amigos soltassem a famosa frase: “Myrian, canta aquela...”

Dessa vez a turma toda havia combinado de ir em um bar classificado como “mal frequentado”. Mas para um grupo de casais que tinha como intuito apenas se reunir , o “Recanto do Tio” estava pra lá de bom. Como de costume, minha avó acabou subindo no palco pra cantar alguma da época.

A cena inusitada e um tanto quanto constrangedora ocorreu apenas no simples ato de um cavalheiro que, desavisado sobre sua atitude chucra, parou em frente ao palco, bem na mira de minha avó, com as pernas abertas como quem analisasse algo, e com um baita chapelão de palha. “Parecia que ele ia sacar dois revólveres, um de cada lado.” – diz minha avó sobre a situação.

A belíssima dona Myrian continuou cantando sem descer do salto, apesar do chapelão... digo: PAPELÃO do rapaz.
Os homens da turma começaram a se levantar, em estado de alerta, mostrando-se disponíveis para comprar briga.

O mais interessante desse “causo” de beira de estrada é que ele acaba aqui. Não aconteceu nada, o cara não queria nada, ninguém fez nada, ninguém entendeu nada... O caipira simplesmente esperou a música acabar, com o olhar sempre fixo, e foi embora. Uma briga e alguns olhos roxos não seria tão irritantemente esquisito!