28/04/2012

O homem do chapelão de palha

Ah, lembranças! Nesse próximo “causo” que narro a vocês está presente a melhor das lembranças que tenho da ‘aurora de minha vida’: um banquinho, um violão, uma deusa de marfim no auge de seus 50 e poucos... A melhor lembrança que tenho da minha infância é, com certeza, a visualização de minha avó cantando Cartola, Nana Caymmi, “Índia” e, por que não, até mesmo alguns hits sertanejos da época ou até mesmo alguns internacionais? Enfim, não estou aqui para falar de meus devaneios e da linda imagem que guardo dessa mulher que tenho como modelo. Vamos ao causo...

Minha avó costumava cantar no coral do encontro de casais da Igreja, bem como suas Mpb’s em bares que sua turma ia. A famosa “canja”. Branca, translúcida... magra, sempre bem vestida, com fisionomia de boneca e um charme sem igual (como bem me lembro), certaente chamava muita atenção nos palcos. A voz rouca, a afinação e o carisma sempre acabavam fazendo com que os amigos soltassem a famosa frase: “Myrian, canta aquela...”

Dessa vez a turma toda havia combinado de ir em um bar classificado como “mal frequentado”. Mas para um grupo de casais que tinha como intuito apenas se reunir , o “Recanto do Tio” estava pra lá de bom. Como de costume, minha avó acabou subindo no palco pra cantar alguma da época.

A cena inusitada e um tanto quanto constrangedora ocorreu apenas no simples ato de um cavalheiro que, desavisado sobre sua atitude chucra, parou em frente ao palco, bem na mira de minha avó, com as pernas abertas como quem analisasse algo, e com um baita chapelão de palha. “Parecia que ele ia sacar dois revólveres, um de cada lado.” – diz minha avó sobre a situação.

A belíssima dona Myrian continuou cantando sem descer do salto, apesar do chapelão... digo: PAPELÃO do rapaz.
Os homens da turma começaram a se levantar, em estado de alerta, mostrando-se disponíveis para comprar briga.

O mais interessante desse “causo” de beira de estrada é que ele acaba aqui. Não aconteceu nada, o cara não queria nada, ninguém fez nada, ninguém entendeu nada... O caipira simplesmente esperou a música acabar, com o olhar sempre fixo, e foi embora. Uma briga e alguns olhos roxos não seria tão irritantemente esquisito!

Um comentário:

✿ chica disse...

É!Muitas vezes a não existência de nada demais, torna o fato inesquecível. Lindas lembranças! beijos,chica