04/06/2014

A explosão em Três Corações

Após um bom tempo de sumiço, cá estou para arquivar mais uma das inacreditáveis e REAIS histórias de minha avó. Estávamos agora mesmo relembrando algumas das grandes tragédias mundiais, como uma bela família normal e feliz. Guardadas as proporções, minha avó lembrou-se de um relato que eu ainda não havia exposto. RELATO, e não "causo", pois este ela presenciou, e se lembra com detalhes.
É louvável a memória dessa grande mulher, mas neste caso, pudera! Algo assim não sai da memória facilmente.

Aconteceu por volta de 1944. Minha avó tinha por volta de seus seis anos de idade e ainda morava em Três Corações, interior de Minas Gerais. Era domingo (sim, esse detalhe é certo, pois os domingos eram passadas na casa da avó mineira de minha avó - Etelvina). Estava ela então, no breve início de sua vida, visitando sua avó em um domingo qualquer. Seus pais estavam em sua casa, a poucas ruas dali.

Os trens da cidade, na época comandados pela Rede Mineira Viação, não funcionavam naquele momento; estavam todos os vagões imóveis, próximos à estação. Era a hora do café da tarde quando ouviu-se uma explosão enorme. O barulho ensurdecedor veio acompanhando de estrondos de janelas quebrando, móveis caindo e objetos sendo atirados. Minha avó se lembra que a faca que segurava no momento, foi parar do outro lado da cozinha. Em seguida, iniciou-se um festival de gritos desesperados. As pessoas foram às ruas, gritando, rezando, chorando e correndo, em questão de segundos. Além do tumulto na tal cidade pequena, outro dado que marcou a memória de minha avó foi a cor do céu. Em minutos o céu se avermelhou, num "vermelho cor de sangue", como ela mesma descreve. A empregada da casa da avó de minha avó, dona Nair, pegou as crianças e correu junto com o restante da população para o morro mais alto da cidade. A cena de terror de um mutirão de pessoas debandando, em massa, para as colinas, deve ter sido cinematograficamente marcante, a ponto de não conseguirmos descrever. Pois bem, criem as imagens em suas cabeças.

Numa casa próxima estava Zina, mãe de Myrian (minha avó), que carregava em seu ventre o pequeno Marcos. Zina e seu marido Luiz estavam saindo da casa com destino à casa dos pais de Luiz. Minha avó lembra-se perfeitamente desse trajeto "lar-casa dos avós". No caminho ficava o grupo escolar que minha avó frequentava em Três Corações. Zina foi atirada na calçada do grupo escolar, com a forte pressão que acompanhava aqueles estrondos. Suspeita-se que essa pode ter sido uma das causas dos problemas que levaram seu filho, Marcos, a falecer, ainda bebê.

O medo dos barulhos ensurdecedores e do céu vermelho era ainda maior pois não sabiam identificar as causas. Aos poucos os barulhos foram parando e o céu clareando. As pessoas foram arriscando-se a descer do morro e a voltarem para suas casas.

Após um certo tempo tudo foi se esclarecendo. Perdoem-me as explicações técnicas pois estas foram fornecidas por uma criança de seis anos e o prazo de validade de tais informações já está mais do que distante. O que sabe-se é que o trem mais próximo à estação estava parado e transportava material inflamável, que chamaram na época de Nitroglicerina. Ou era algo próximo. O fato é que a tal substância foi o suficiente para explodir um vagão e causar um estrago imenso em diversas construções próximas. Logo em seguida o segundo vagão foi atingido, explodindo mais uma parte dos patrimônios de Três Corações. As explosões e as construções atingidas que causaram tamanho barulho. Consequentemente os próximos vagões, em efeito dominó, seriam o suficiente para destruir a cidade inteira, "conforme comentaram na época".

Houve um herói nessa história toda. Um soldado da escola de sargentos da cidade conseguiu mover os trilhos (ou algo assim - não exijam tanto da memória de uma criança!) e tirou os próximos vagões da rota, amenizando o problema.

Entendo que seja incomum uma história com tantos detalhes impertinentes e pouca explicação técnica, mas acredito que assim funcione uma mente movida apenas a saudades. Fica o apelo ao exímio historiador que acredite ser capaz de descobrir detalhes de uma história que mal data tem.

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